A IMAGEM/IDENTIDADE INDÍGENA PARA UM
GRUPO DE ALUNOS DO ENSINO MÉDIO.
Andreia Martel Torres
RESUMO
A proposta deste artigo é relatar a experiência da atividade desenvolvida
com os alunos da turma 721-dependência/2014 da Escola Raimunda Virgolino. O objetivo
foi analisar o conjunto de imagens/identidade que um grupo de alunos do ensino
médio faz do indígena de maneira geral. O desenvolvimento deu-se em quatro
encontros semanais. No primeiro encontro ocorreu a exibição do Filme “Como era
Gostoso o Meu Francês” (1971) de Nelson Pereira dos Santos; nos encontros
subsequentes ocorreram atividades de análises, questionamentos, debates e
atividades escritas. Selecionamos as respostas produzidas das atividades de
três dos sete alunos matriculados na turma. O trabalho ancorou-se teoricamente em
autores como McLuhan (1964), Martin (2013) e Kornis (1992) para a linguagem
cinematográfica; Bauman (2005), Hall (2014) para identidade; e Durant (2011) para o imaginário. A análise de
conteúdo com Bardin (2009) foi a metodologia utilizada para a interpretação às respostas produzidas. Como
resultados, percebemos que é imperiosa uma imagem/identidade de estereótipos
de cunho eurocêntrico que perpetuam a dicotomia, dominadores e dominados,
vencedores e vencidos em detrimento de uma visão interpretativa do indígena
como individuo que se
organiza e faz o seu cotidiano construtivamente, como a abordada no Filme de
Nelson Pereira dos Santos.
Palavras chaves: Identidade
indígena – Imaginário - Educação
INTRODUÇÃO
O filme escolhido para as atividades desenvolvidas com os alunos da turma
721-dependência/2014 da Escola Raimunda Virgolino foi o do cineasta, diretor e
roteirista brasileiro Nelson Pereira dos Santos, “Como Era
Gostoso o Meu Francês (1971)”. Com duração aproximada de 1 hora e 21 minutos, gênero drama (de
acordo com o site do MinC) e tendo como elenco Arduíno Colassanti interpretando o francês, Ana
Maria Magalhães interpretando Seboipepe, Gabriel Archanjo - Mbiratata, Eduardo
Imbassahy Filho – Cunhambebe, José Kléber – Ipiraguaçu, entre outros; Célio
Moreira fazendo a narração.
A escolha desta película não se deu ao acaso,
considerada um clássico do cinema nacional com viés tropicalista, além de uma visão
irônica sobre a colonização brasileira coloca
“em pauta, novamente (...) o choque
entre culturas, aqui incorporadas numa narrativa com muitas aventuras (...),”
(SIMÕES, 1998, p. 168). O filme de Nelson Pereira dos Santos tem como pano de
fundo o Brasil Colonial e mescla documentos históricos, narrativas de
viajantes e críticas ao período ao qual à sociedade brasileira está inserida no
momento da produção deste filme.
Do livro de Jean de
Lèry, o cineasta empresta a descrições da
carta encaminhada a Calvino pelo vice-almirante de Bretanha; Durand de
Villegagnon, cavaleiro de Malta, e fundador de uma colônia francesa na enseada
em que se construiria mais tarde o Rio de Janeiro. Nesta carta, datada de 31 de
abril de 1557, há o detalhamento de uma rebelião por parte dos franceses
comandados contra o vice - almirante e sua tirania, tal relato é descrito na
narrativa inicial do filme e no livro de Jean de Lery:
Mas aconteceu que vinte e seis mercenários, incitados pela sua cupidez
carnal, contra mim conspiraram, sendo-me entretanto o fato revelado no dia em
que eu ia ser trucidado e no próprio momento em que a mim se dirigiam os
conspiradores. Evitamos a realização de seus intentos mandando eu ao seu
encontro cinco criados armados, o que os atemorizou a ponto de se tornar fácil
desarmar e prender quatro dos principais chefes, fugindo os outros a se
esconder depois de abandonarem as armas. Libertamos um deles de suas correntes,
no dia seguinte, a fim de que pudesse melhor defender sua causa, mas ao ver-se
livre deitou a correr e jogou-se ao mar, afogando-se. (Villegagnon apud LERY)
Os relatos de Hans Staden, cujo título original “ História Verídica e descrição de uma terra
de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da
América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até
os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu
por experiência própria, e que agora traz a público com essa impressão” mostra
a forma como as viajantes apreendiam as terras que viriam a formar o Brasil e
que atualmente é comercializado sob o título “Duas Viagens ao Brasil” também
serve como base para o filme. Nelson Pereira quebra vários dos paradigmas
estabelecidos nos relatos deste viajante e se apoia na descrição detalhada dos
rituais antropofágicos desenvolvidos pelos ameríndios Tupinambás para traçar o ancoradouro
do enredo do filme.
No filme, apesar das relações mais estreitas com a França, os índios
tupinambás confundem o francês com um português e o aprisionam para que seja
cumprido todo o ritual antropofágico já que de acordo com as tradições dos
Tupinambás, aos mortos, é prometido vingança durante o conflito.
Além da finalidade de cumprimento do ritual o francês é mantido entre os
tupinambás devido a sua habilidade no trato com canhões e pólvora, o que nos
relatos de Hans Standen o impede de ir parar na cadeia. Pela tradição entre os
ameríndios nas guerras rotineiras contra os inimigos tradicionais, a luta era
suspensa quando uma das partes envolvidas, tendo matado alguns inimigos,
conseguiam capturar alguns prisioneiros. Durante os ataques eram mortos sem
contemplação homens mulheres e crianças, (...) “Os prisioneiros preferidos eram
os homens para que se pudesse cumprir todo o ritual antropofágico, pois um dos
principais objetivos dos ataques guerreiros era o de fazer cativos para serem
devorados (MESGRAVIS; PINSK, 2000, p. 60)”.
É no interstício entre a captura e o cumprimento do ritual que se
desenvolve a trama de Nelson Pereira dos Santos.
A antropofagia como fio condutor da
discussão da imagem/identidade do indígena.
O Costume dos ameríndios
Tupinambás, tido pelos viajantes como selvagens, do qual Nelson Pereira dos
Santos empresta o relato e ambienta seu filme caracteriza-se como um duplo
desafio à interpretação.
O espectador é lançado num
entrelaçado contexto de disputas e conflitos, nacionalidades em guerra, no qual
se desenrola o tema do ritual da antropofagia. Este primeiro desafio, o de se
ver num “contexto interpretativo”, ressalta o que Durant (2011) denominou de caráter
do paradoxo do imaginário do ocidente, isto é, o método da verdade com apenas
dois valores: um falso e um verdadeiro que excluem a possibilidade de toda e
qualquer terceira solução.
Nelson
Pereira “brinca” com a possibilidade da terceira opção ao demostrar as
características da organização social entre as comunidades que praticavam a
antropofagia, uma vez que as guerras entre eles não visavam os espólios e sim
fazer prisioneiros para que o ritual fosse realizado completamente, portanto
indo à além da dicotomia selvagens e civilizados.
Nota-se esta correlação
em várias cenas do filme como; a que francês ensina o manuseio do canhão aos
tupinambás e aprende a usar o arco e a flecha, caçar, pescar adaptando-se ao
cotidiano da tribo.
Noutra o francês descobre
que existe uma grande quantidade de moedas de ouro enterradas na aldeia. Os
tupinambás querem negociar pólvora como o mercador que tenta ludibriar os ameríndios,
por considerar a pólvora algo extremamente perigoso. O francês servirá de
intermediário na negociação e a obtenção da pólvora para o manuseio dos
canhões. Convencendo-o a consegui-la, em troca das moedas de ouro. O ganancioso
mercador quer todo dinheiro para si e, depois de uma briga com um cativo, é
morto.
No decorrer do filme percebemos a inserção de Jean nos costumes
tupinambás, inclusive na decisão da forma com iriam proceder o ritual
antropofágico. Mesgravis e Pinsk (2000) enfatizam que o ritual poderia se
prolongar por mais de um ano e, neste período, o cativo seria bem tratado
podendo inclusive receber uma esposa, todos esses favorecimentos foram bem
marcados no filme de Nelson Santos.
Percebe-se que a construção das
imagens sobre os ameríndios, por Nelson Pereira dos Santos, busca um viés diferente
dos estereótipos alardeados e consolidados pelo relato dos viajantes e
cronistas que apesar de se constituírem em fontes detalhadas dos encontros com
os habitantes das terras do Brasil à época, como no caso do livro que traz os
relatos de Hans Staden e que serve por base para o filme, devem ser cautelosos
e precedidos de um olhar cuidadoso. Compreender os rituais como uma das formas
desta organização social baseada nos seus costumes e seus conjuntos de valores
é um requisito para compreender essas nações, sobre isto Mesgravis aponta:
Há estereótipos incansáveis repetidos em Simão de Vasconcelos, Brandão,
Souza Gandavo e Jesuítas como é o caso da célebre constatação de que a língua
dos índios do litoral não possuía as letras F,L e R, provando, portanto, não
terem Fé, nem Lei, nem Rei. Essa imagem retórica, a primeira vista engenhosa, é
na verdade um sofisma, pois as línguas indignas poderiam conter estas
expressões com as outras letras e sons. Era um fecho para as longas descrições
da organização social, politica e religiosa dos índios, procurando demonstrar o
perigoso estado de anarquia moral de suas vidas e a necessidade de impor a
autoridade e os valores da civilização europeia que, assim, ocuparia os espaços
vazios. (MESGRAVIS, 2007, p. 40)
O filme substitui essa primeira
imagem do nativo antropófago por uma imagem do nativo que se organiza e faz o
seu cotidiano construtivamente: plantando, pescando, fazendo adereços. Uma
forma mais amena e humanizada da relatada dos cronistas, possibilitando que por
meio da análise minuciosa deste cotidiano seja palco para o fomento de uma
imagem/ identidade que se alinhe a imagem/identidade que transborde a ideia de
verdadeiro e falso para os ameríndios.
Por imagem Durant (2011) aponta
para aquilo que é intermediário entre um inconsciente não manifesto e uma
tomada de consciência ativa. Daí ela possuir o status de um símbolo e
constituir o modelo de um pensamento indireto no qual o significante ativo
remete a um significado obscuro. Já o conceito de identidade deve ser entendido
como algo a ser revelada “como algo a ser inventado, e não de fato descoberto;
como alvo de um esforço, um objetivo; como uma coisa que ainda se precisa
construir a partir do zero ou escolher entre alternativas” (BAUMAN, 2005, p. 21-22).
Ou ainda:
(...) uma construção ideológica que se traduz,
objetivamente, por uma hierarquia das práticas culturais, portanto, por um
sistema de referenciais. Assim, cada espaço cultural gera seu próprio sistema
de referências, sob formas diferentes, através de estéticas diferentes, cada
espaço vai gerar uma hierarquia das práticas, como modos de oposição
específicos entre cultura “erudita” e cultura “popular” (HERSCOVIC, p. 76 apud
AUGUSTO, 2013, p. 6).
É da
miscelânea destes conceitos e abordagem contexto interpretativo posto no filme
que situamos as atividades, pois, é neste cotidiano que se dá a vivência do
francês Jean, que se adaptando à comunidade indígena tem a possibilidade de
caçar, plantar, e até ter uma mulher provisória. Essa relação pode ser
percebida pela imagem que se transmuta no andar nu, nas habilidades do arco e
flecha e na participação de campanhas de guerra da tribo, na adesão do corte de
cabelo. Decorrendo, sobretudo da análise baseada no cunho e função social da
guerra entre os tupinambás, já que essa vivencia não é casual.
Todo esse
longo e complicado cerimonial destinava-se, como justificavam os índios, a
apaziguar o espirito do morto para que não procurasse vingança contra seu
matador. O ato de devorar o prisioneiro tinha por objetivo declarado vingar os
parentes e amigos dos mortos pelos inimigos e incorporar suas virtudes
guerreiras e força espiritual (MESGRAVIS E PINSK, 2000, p. 62).
Esses rituais bem como a guerra
entre os tupinambás e os tupiniquins são anteriores a chegada dos europeus e
tem essa representação ligada a este caráter social. Podemos identificar isto
nas cenas que antecedem a morte do francês, no qual ele guerreia entre os
tupinambás demonstrando suas habilidades com a pólvora.
Já próximo
à data do ritual, onde será canibalizado, o francês tenta fugir. Ele é
flechado, não fatalmente, pela esposa e sua canoa está furada. Segue-se
a cena do ritual, a tribo prepara-se para o ritual, percebe-se a marca da arte
plumária, os cantos, a exortação, a figura do índio executor do prisioneiro que
aparece com a pintura corporal de maneira viva e o corpo coberto com plumas. Na
cabeça, o cocar é bem definido e a arma de execução, que tinha por objetivo
esmagar lhe o crânio em um golpe certeiro, o tacape também recebia adereços de
pena. As cenas servem para a exploração da execução, parte do ritual, mas
fomenta, sobretudo, outras discussões.
O filme “como era gostoso meu francês” e
a visão dos alunos.
Em busca de perceber
quais outras possibilidades o filme possibilitaria a respeito do conjunto de
imagens e a identidade ameríndia, este foi inserido como parte das atividades desenvolvida com os alunos da turma
721-dependência/2014 da Escola Raimunda Virgolino. Tais metodologias foram
desenvolvidas em quatro encontros semanais.
No primeiro encontro ocorreu a exibição do filme de Nelson Pereira dos
Santos; nos encontros subsequentes ocorreram atividades de análises,
questionamentos, debates e atividades escritas. Selecionamos as respostas
produzidas das atividades de três dos sete alunos matriculados na turma.
No tempo decorrido do primeiro
dia de encontro, além da exibição foi apresentada a ficha técnica e feita a ambientação
do filme. Por adotar como idiomas o
português, o francês e o tupi, foram necessárias algumas interrupções e
comentários sobre as cenas.
Pedimos aos alunos que fizessem
registros de suas impressões gerais a respeito do filme e direcionamos
questionamentos sobre a visão geral do conteúdo do filme para eles. A busca
pelas repostas aos questionamentos foram obtidas através de pesquisas em outros
canais, como a internet, e ainda por meio da leitura do texto disponibilizado
para estes e futuros enfrentamentos, comparações, confirmações ou negações.
Também direcionamos os questionamentos da maneira como procederíamos nos três
outros encontros aos sábados. Cada atividade foi atribuída nota máxima de dez
pontos, valor que seria multiplicado por três e assim valeria como nota para
cada bimestre do calendário estipulado para a dependência.
Assim seguiram os
questionamentos para o segundo encontro:
·
Este
filme é sobre?
O questionamento,
aparentemente incoerente com o nível que se pretende alcançar neste trabalho na
verdade revela ou não o poder de síntese dos alunos. Os especialistas propõem
aos historiadores, a leitura interna do filme, conteúdos, personagens,
acontecimentos principais, cenário, lugares, tempo em que decorre a história
narrada, ou com a leitura através da ficha técnica.
Como sabemos nossos
alunos não são historiadores, nem críticos de cinema e para tal leitura seria
necessário um tempo maior dedicado à análise e a capacitação do deste para tal
e o qual não tínhamos disponível, mas, acreditamos que nossa sala de aula é uma
porta aberta a novidades e furtar-se ao experimento e limitar a pesquisa não se
enquadra ao papel que se pretende com os novos paradigmas da educação.
Para tal questionamento
nos deparamos e procedemos a partir das respostas:
“É um filme brasileiro, de 1971,
dirigido por Nelson Pereira dos Santos, aconteceu no Brasil de 1594, onde um
prisioneiro francês, que consegue escapar da morte se afogado em um rio com uma
bola presa ao seu pé, mas irá se tornar prisioneiro de uma tribo de Tupinambás.
Os Tupinambás eram canibais e se alimentaram dos franceses que eles mataram. No
inicio do filme aparecem figuras que detalham e apresentam os rituais”
(JOSICLEIA).
Um prisioneiro francês que consegue
escapar da morte após ser jogado em um rio com uma bola de ferro no pé, mas
acaba se tornando prisioneiro de uma tribo indígena (tupinambás) (VALTER).
O filme fala do inicio da colonização
Brasil, como viviam os habitantes, como era o choque tão distinto entre os
europeus e os índios. (WILLIAN)
Os
alunos-espectadores fizeram sem grandes dificuldades esta síntese ou exercício
de percepção, assim como identificar os atores em destaque e localizar o
recorte temporal a qual o filme se refere. Apesar da data mencionada pela aluna
divergir da exposta, entendemos que o site de consulta a qual recorreu falava
de uma possível edição do livro que serve de base para o filme, provavelmente
causando a confusão.
Além
do exercício de síntese, nesta dinâmica metodológica foi possível perceber que
assim como conceitua Costa (2003); McLuhan
(1964) o cinema tem a ver com o desejo, com o imaginário e com o
simbólico; consiste nos jogos de identificação e nos complexos mecanismos que
regulam o funcionamento de nossa psique, de nosso inconsciente, “o cinema é
linguagem que tem parentesco com a literatura, possuindo em comum o uso das
palavras em forma de imagem.” (KORNIS, 1992).
Por
meio deste entendimento prosseguimos com as questões.
·
Qual
sua visão a respeito das etnias indígenas que compunham o Brasil antes da chegada
dos europeus? Quais pontos foram confirmadas após assistir ao filme “Como Era Gostoso o Meu Francês”?
Sobre esse
questionamento os alunos nos apontaram: eles viviam da caça, da pesca e da
agricultura, principalmente da mandioca, os índios domesticavam animais de
pequeno porte (JOSICLEIA).
Eu
posso descrever o indígena como aquele tipo de personagem folclórico, com
tangas, penas na cabeça e com arco e flecha nas mãos. O que se confirma é a
cultura canibal e o homem branco mesmo dominando a pólvora era inferior a eles
quanto às habilidades (VALTER).
A
imagem associada ao arco, flecha, penas no corpo, com tangas é o que predomina
quando pensamos em evocar as imagens referentes às etnias, Na verdade, a ideia
não era fazer uma descrição do modo como se “vestiam”, mas sim de análise
desses grupos e principalmente da percepção que tais grupos tinham uma
organização diferenciada do europeu e esta pode ser percebida, sobretudo, na
própria organização do próprio ritual antropofágico que é a passagem mais emblemática
do filme. Percebemos um ensaio a este na resposta do aluno Valter, no que trata
das habilidades em relação à floresta e a adaptação, mas não há uma
consistência na resposta.
A
outra indagação tratou novamente da imagem, agora tentando ver a percepção dos
alunos em relação a imagem e identidade construída por Nelson Pereira para s
indígenas. Como são retratados os
tupinambás no filme? Você concorda com essa imagem?
Os tupinambás
são retratados como canibais, não porque fossem canibais, era para o ritual.
Comiam pessoas ao invés de outros tipos de caça que tem na natureza onde eles
viviam (JOSICLEIA).
Os tupinambás
eram trabalhadores, mas os europeus não aceitavam seus costumes, eles julgavam
o jeito deles (WILLIAN).
A
partir desses pontos levantamos outros questionamentos: os tupinambás são realmente como os documentos evidenciam? O filme
conseguiu retratar a realidade do grupo? Sabemos que não é possível
localizar o aluno no mesmo período e espaço no qual Hans Staden tem seu
encontro com os tupinambás, mas pode ser estabelecido um comparativo, aqui um
anacronismo necessário para que a construção de uma imagem possa vir a se realizar,
a este denominamos de exercício de imaginação histórica. Para Arrais (2009), a
imaginação histórica é tornar o passado um objeto acessível ao pensamento
através de um modelo construtivo de interpolação entre as afirmações feitas
pelas fontes com outras, deduzidas das mesmas.
A
ideia neste tipo de exercício é extrapolar o caráter ilustrador do filme, de
complemento de conteúdo de sala, da imagem dos grupos que habitavam o Brasil do
período em questão. Para isso questionamos a própria ideia de fidelidade do
filme a essa imagem, pois, “obviamente, é sempre louvável quando um filme
consegue ser “fiel” ao passado representado, mas esse aspecto não pode ser
tomado como absoluto na análise histórica do filme”. (NAPOLITANO, 2014, p.
237).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como resultados, percebemos que é imperiosa uma
imagem/identidade de estereótipos de cunho eurocêntrico que perpetuam a visão dicotomia,
dominadores e dominados, vencedores e vencidos o que reforça a ideia de Gilbert
Durant (2011) sobre o paradoxo do
imaginário do ocidente, o falso e o verdadeiro que excluem a possibilidade de
toda e qualquer terceira solução, em detrimento de uma visão
interpretativa do indígena como individuo que se organiza e faz o seu cotidiano
construtivamente, como a abordada no Filme de Nelson Pereira dos Santos.
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