O
livro analisado nesta proposta é o marco inicial da teorização e aplicação aos estudos
da chamada relação cinema - história. Este surge como um pedido de Jean- Louis
Ferrier e em sua dedicatória podemos perceber a influencia de Jacques Le Goff e
a ligação de Marc ferro ao que se convencionou nomear História das Mentalidades.
Na
primeira parte de seu trabalho, Ferro preocupa-se em elucidar os caminhos de
sua pesquisa e a forma como o leitor deve encarar como que o cinema passa a
influenciar e interferir no fazer histórico e na compreensão desta história.
Um
dos primeiros pontos para qual Ferro chama a atenção é em relação ao cinema
como agente histórico. Segundo este autor o cinema é fruto do progresso
cientifico e seu uso esta relacionado a tal, posteriormente temos o
desenvolvimento do cinema como arte. Esta arte, por intermédio de seus
pioneiros, passa a intervir na história. Percebendo-se a importância do cinema
para o cenário que está se descortinando e na tomada de consciência de tal
cenário. Por tomada de consciência, entendemos que Ferro demonstra o espírito
livre que o cinema impõe diante das ideologias dominantes.
A
respeito deste contexto não surpreende que tais grupos tentassem apropriar-se
das novas facetas que o cinema oferece, utilizando-o para perpetuação de suas
ideologias, no entanto o cinema nas mãos
de alguns cineastas seria marca de resistência observada por sua subjetividade,
autoconsciência e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente,
perfazendo a apresentação de novas
imagens, como bem salienta Ferro:
“Sem duvidas,
esses cineastas, conscientemente ou não, estão cada um a serviço de uma causa,
de uma ideologia, explicitamente ou sem colocar abertamente as questões.
Entretanto, isso não exclui o fato que entre eles haja entre eles resistência e
duros combates em defesas de suas próprias ideias(...), o que vigorosamente
suscita uma nova tomada de consciência, de tal forma as instituições ideológicas instauradas
(partidos políticos, igrejas, etc.) entram em disputas e rejeitam tais obras,
como se apenas essas instituições tivessem o direito de se expressar em nome de
Deus, da nação ou do proletariado, e como se apenas elas dispusessem de outra legitimidade
além daquela que elas próprias se outorgam. (Ferro, p.14)”
Desta forma Ferro
demonstra um das contribuições apriorísticas do cinema com relação às sociedade
que se utilizaram de documentários, filmes e produções cinematográficas, a
tomada de consciência.
Nesta estreita ligação
podemos elencar ainda um segundo ponto pertinente a linguagem cinematográfica. Linguagem essa que revela muito das ideias de
quem produz, uma vez que o cinema é bem mais do que a transcrição de uma
escrita literária, ele envolve o espectador em uma forma única de ver e
enxergar, próprio das condições operatórias pertencentes a este tipo de
linguagem que se revela atrelada ao modo que
a própria sociedade produz e consome o que produz, sobre isso
destaca-se:
Sem duvidas essa
capacidade está ligada, como se verá depois, à sociedade que produz o filme e
àquela que o recebe, que o recepciona. (...) o cinema dispõe de certo numero de
modos de expressão que não são uma simples transcrição da escrita literária, mas que tem sim, sua
especificidade(...). Entretanto seria ilusória, imaginar que a prática dessa
linguagem cinematográfica é, ainda que inconscientemente, inocente. (p 16)
Percebemos que o campo
torna-se acirrado no que tange a linguagem cinematográfica e seus viés, já que
esta leva ao terceiro ponto a ser observado ao se pretender buscar os caminhos
históricos percorrido pelo cinema, os conflitos, o que Ferro denominou de “
armas de combate ligadas à sociedade que produz o filme, à sociedade que o
recebe”.
Neste ponto o autor
desvela o cinema como um palco de embates, lutas, que podem se descortinar
tanto de maneira aberta como de maneira disfarçada. Ferro elucida a percepção
já exposta por Eisenstein na qual diz que a sociedade recebe as imagens em
função de sua própria cultura, o cinema como fruto do seu tempo e para esta
sociedade, mesmo que o enredo da projeção trate de outro tempo.
Assim como todo produto
cultural, toda ação política, toda indústria, todo filme tem uma historia que é
História, como sua rede de relações pessoais, seu estatuto dos objetos e dos homens, onde
privilégios e trabalhos pesados, hierarquias e honras encontram-se
regulamentados, os lucros da gloria e dos dinheiros são aqui regulamentados (
p.19)
Portanto presumisse que
como linguagem, o cinema é passível de diferentes interpretações de sua
escrita que relacionam-se a maneira como que a sociedade se transforma, convergindo na mudança de sentido ou
até mesmo na completa inversão do que a obra pretendia.
Especificamente no campo
do fazer histórico, Ferro enfatiza que o cinema alcança zonas antes invisíveis para
o passado de uma sociedade e que estaria intrinsecamente relacionada a própria leitura
do passado, esses surgem de fatos outrora escondidos e se liga as memórias populares e a tradição
oral, que devemos reconhecer foram relegados a planos secundários por um grande
parte da produção historiográfica, sendo fomentado apenas em um passado
recente.