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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FERRO, Marc. Cinema e História; tradução Flavia Nascimento – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.




            O livro analisado nesta proposta é o marco inicial da teorização e aplicação aos estudos da chamada relação cinema - história. Este surge como um pedido de Jean- Louis Ferrier e em sua dedicatória podemos perceber a influencia de Jacques Le Goff e a ligação de Marc ferro ao que se convencionou nomear História das Mentalidades.
Na primeira parte de seu trabalho, Ferro preocupa-se em elucidar os caminhos de sua pesquisa e a forma como o leitor deve encarar como que o cinema passa a influenciar e interferir no fazer histórico e na compreensão desta história.
Um dos primeiros pontos para qual Ferro chama a atenção é em relação ao cinema como agente histórico. Segundo este autor o cinema é fruto do progresso cientifico e seu uso esta relacionado a tal, posteriormente temos o desenvolvimento do cinema como arte. Esta arte, por intermédio de seus pioneiros, passa a intervir na história. Percebendo-se a importância do cinema para o cenário que está se descortinando e na tomada de consciência de tal cenário. Por tomada de consciência, entendemos que Ferro demonstra o espírito livre que o cinema impõe diante das ideologias dominantes.
A respeito deste contexto não surpreende que tais grupos tentassem apropriar-se das novas facetas que o cinema oferece, utilizando-o para perpetuação de suas ideologias, no entanto o cinema nas  mãos de alguns cineastas seria marca de resistência observada por sua subjetividade, autoconsciência e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente, perfazendo a apresentação  de novas imagens, como bem salienta Ferro:
“Sem duvidas, esses cineastas, conscientemente ou não, estão cada um a serviço de uma causa, de uma ideologia, explicitamente ou sem colocar abertamente as questões. Entretanto, isso não exclui o fato que entre eles haja entre eles resistência e duros combates em defesas de suas próprias ideias(...), o que vigorosamente suscita uma nova tomada de consciência, de tal forma  as instituições ideológicas instauradas (partidos políticos, igrejas, etc.) entram em disputas e rejeitam tais obras, como se apenas essas instituições tivessem o direito de se expressar em nome de Deus, da nação ou do proletariado, e como se apenas elas dispusessem de outra legitimidade além daquela que elas próprias se outorgam.  (Ferro, p.14)”

Desta forma Ferro demonstra um das contribuições apriorísticas do cinema com relação às sociedade que se utilizaram de documentários, filmes e produções cinematográficas, a tomada de consciência.
Nesta estreita ligação podemos elencar ainda um segundo ponto pertinente a linguagem cinematográfica.  Linguagem essa que revela muito das ideias de quem produz, uma vez que o cinema é bem mais do que a transcrição de uma escrita literária, ele envolve o espectador em uma forma única de ver e enxergar, próprio das condições operatórias pertencentes a este tipo de linguagem que se revela atrelada ao modo que  a própria sociedade produz e consome o que produz, sobre isso destaca-se:
Sem duvidas essa capacidade está ligada, como se verá depois, à sociedade que produz o filme e àquela que o recebe, que o recepciona. (...) o cinema dispõe de certo numero de modos de expressão que não são uma simples transcrição da escrita  literária, mas que tem sim, sua especificidade(...). Entretanto seria ilusória, imaginar que a prática dessa linguagem cinematográfica é, ainda que inconscientemente, inocente. (p 16)

Percebemos que o campo torna-se acirrado no que tange a linguagem cinematográfica e seus viés, já que esta leva ao terceiro ponto a ser observado ao se pretender buscar os caminhos históricos percorrido pelo cinema, os conflitos, o que Ferro denominou de “ armas de combate ligadas à sociedade que produz o filme, à sociedade que o recebe”.
Neste ponto o autor desvela o cinema como um palco de embates, lutas, que podem se descortinar tanto de maneira aberta como de maneira disfarçada. Ferro elucida a percepção já exposta por Eisenstein na qual diz que a sociedade recebe as imagens em função de sua própria cultura, o cinema como fruto do seu tempo e para esta sociedade, mesmo que o enredo da projeção trate de outro tempo.

Assim como todo produto cultural, toda ação política, toda indústria, todo filme tem uma historia que é História, como sua rede de relações pessoais, seu  estatuto dos objetos e dos homens, onde privilégios e trabalhos pesados, hierarquias e honras encontram-se regulamentados, os lucros da gloria e dos dinheiros são aqui regulamentados ( p.19)

Portanto presumisse que como linguagem,  o cinema é passível de diferentes interpretações de sua escrita que relacionam-se a maneira como que a sociedade se transforma, convergindo na mudança de sentido ou até mesmo na completa inversão do que a obra pretendia.
Especificamente no campo do fazer histórico, Ferro enfatiza que o cinema alcança zonas antes invisíveis para o passado de uma sociedade e que estaria intrinsecamente relacionada a própria leitura do passado, esses surgem de fatos outrora escondidos  e se liga as memórias populares e a tradição oral, que devemos reconhecer foram relegados a planos secundários por um grande parte da produção historiográfica, sendo fomentado apenas em um passado recente.